domingo, 23 de fevereiro de 2020
Circulando
sábado, 18 de janeiro de 2020
Coragem e covardia
O medo e a bravura são como gêmeos siameses: duas cabeças atadas a um mesmo corpo operado apenas pelos sentidos. O corpo bicéfalo que não raciocina, o corpo que reage aos estímulos sem indagá-los. Sem esgrimi-los com perguntas, questionando os o quês, e os porquês, e os comos, e os quandos, e os ondes, e os quem e os quantos, que repetimos incessantemente acreditando que assim nos fazemos razoáveis, pois cheios de perguntas e respostas e razão.
É nesse corpo nosso de cada dia que tentamos regular, normalizar, tornar previsível, que se opera o imperativo da coragem e da covardia. É um corpo que esperamos que deixe de ter coração e rabo. O corpo que há de tornar-se apenas uma imensa cabeça crítica. Uma cabeça sem corpo que só responde à razão. Uma cabeça gigante que exige perícia e habilidade na condução dos seus desígnios, mas que não se coloca na dança com os outros corpos.
A dança dos corpos em que estamos todos imersos. Organismos vivos, corajosos e covardes, bailando ao sabor da música que dispensa a métrica, a linha, a projeção e o cálculo. Seriam o corajoso e o covarde apenas impetuosos sentimentais movidos pela bravura e pelo medo, respectivamente? Será que vale a busca pelo comportamento medido, calculado, bem pensado, cheio de razão? Ou será que mais vale o baile dos corpos cheios de sensações e multiplicidades?
segunda-feira, 10 de julho de 2017
Novamente
Nosmesmos trilhos, na mesma rota que tracei pra mim.
Estrada, vereda, picada, trilha, rumo, rua.
Não tem endereço fixo (físico), é passagem.
Móvel, mutante, cigano, andarilho, nômade.
Se é o mesmo diferente de sempre.
Nada, ausência, amplidão.
Todo estupor da existência se revela numa classificação deletéria de si.
Porque é assim? Saber, conhecer, aprender, experimentar.
Se revela a si, confunde-te.
Confúncio aplicando teste de personalidade na milenar China.
Saberíamos nós de onde vem tantas interrogações?
O NOVO JÁ PASSOU
o noivo está parado na porta da igreja, com um velho buquê na mão
O NOVO AINDA ESTÁ POR VIR
o velho noivo se casou porque faltava gasolina em seu automóvel, deu carona para alguma noiva em fuga e ali mesmo celebraram a nova união
O NOVO É AGORA
velho novo todo tempo inventando existências possíveis
terça-feira, 28 de março de 2017
Abismo existir
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
Afetos
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Gabriella
domingo, 18 de setembro de 2016
Do filme do Alceu Valença, no outono carioca
Tropeçou na margem da linha do trem
Virgulino vinha azedo de seus afazeres
Distraiu-se consigo mesmo aprisionado
[e decapitado-fatiado-picotado-esquartejado]
Exposto pelas ordens republicanas
De um bom oficial, pai de família
Comportado e ciente de seu dever moral
Amar a pátria mãe
Virgulino em pedaços juntava-se novamente ao cangaço
Daí nasceu uma rima ruim
E oficial ainda carregou mais cinquenta gramas de metal
No bolso da jaqueta verde-oliva [e brega]
[Santa Teresa D'Ávila, 25.05.2016]
domingo, 29 de novembro de 2015
Vento na urbe
E se a tristeza tem fim e a felicidade pode ser simples como um aperto de mão (como diz a carta que o Biel mandou pra nós, aqui do Brasil), melhor não levar tudo tão a sério mesmo, né? Nem tão na boa =)
Aquela ânsia dos saberes vem por dentro, corrói os números que vem por dentro, se expressa confusa. Desejos de saber de si, historicizar-se, conhecer o pai. O luto não fecha, quelóide maldito, remoendo sem libertar-se ainda. Sorte dos aconchegos da vida, das carícias íntimas e públicas, do café com bolo de mãe. Ser miúda outra vez. O namorado adolescente previu cenas contemporâneas. O tempo na contramão dos demais. Adulta aos 7, bebê aos 30. É legítimo sorrir.
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Junto do centro
A menina andava assim: mãos e pés na terra e a cabeça nas estrelas. Tinha conhecido suas dores e suas delícias. Suas maravilhosas pontas nuas, dicotômicas. Mas ela sentia que não era suficientemente completa sem interpelar o mundo com aquela sua cara curiosa. Se se olhasse com atenção podíamos ver no seu rosto um ponto de interrogação que saltava pelo seu nariz a todo instante. O sinal gráfico, maroto que só, ora descia para sua boca e dali saltavam perguntas sérias, perguntas bobas, perguntas de todo tipo. Havia momentos de um simulacro de interrogatório policial, enlouquecendo com isso os calados e também os reclusos. Em outras horas o ponto de interrogação se duplicava ainda na ponta do nariz, soltavam-se num pulo para as bochechas e, gêmeos, percorriam as maças do rosto, saltitantes e tagarelas, depois mergulhavam fundo no interior daqueles olhos verdes. Era então que aqueles olhos, quase sempre marejados, ficavam ávidos pelo mundo, sedentos de respostas pra uma imensidão de perguntas que nem sempre a boca dava conta de formular.
Eram os pontos de interrogação se multiplicando feito girinos naquele ambiente líquido que eram os olhos da menina. E ela estava a se tornar mulher.
domingo, 22 de novembro de 2015
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
Saia
E a América católica? Cada vez mais Pachamama, será mesmo? Não te desoriente, menina. Firme nas convicções, desejosa de dias melhores. Cozinhe e reencante o mundo. A burocrata rebelde já se foi. Causas justas, persista! Amém!
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
quinta-feira, 30 de julho de 2015
Findador
Cento e sete vidas a sorrir
Cento e seis lamentos (perdidos)
Cento e cinco luas cheias a te encontrar
Cento e quatro girassóis despetalados
Cento e três porcelanas trincadas
Cento e duas casas desarranjadas
Cento e um volumes encadernados
No centésimo dia pude me ver refletida
Vi o choro contido, o amor rompido, mas nada tinha estilhaçado
Tentei a cura no sétimo mês
O suicídio uma segunda vez
E a matemática ainda não fechava
Engoli o mundo, me abracei bem fundo
E o ciclo em flor longe não mais estava
sábado, 6 de junho de 2015
Deixa eu dizer?
DAS POSSIBILIDADES:
domingo, 10 de maio de 2015
Desacorrentados
domingo, 26 de abril de 2015
rEVOLution
Ah, as utopias. Como pode ser a vida na sociedade fraterna imaginada por alguém que tem relações conflituosas com os irmãos - irmãos de sangue, não os de espírito - como seria? O tempo acelera no século XXI, assim os conflitos ora se acentuam, ora se amenizam. Seguimos vivos. E a utopia no horizonte.
A desigualdade é tema desde a infância pela diferença dentro de casa. Teve a sorte de ter casa. O trabalho dignifica o homem? E qual o papel possível pra mulher? Trabalho doméstico não reconhecido, chamado de amor. E as vidas que passam-se solitárias? Reflexo da solidão desse momento que questiono tudo. Neil deGrasse Tyson lembra da atitude científica de tudo questionar. E a crença na ciência e sua fé inabalável? E os multiversos da teoria das cordas? E uma apreensão rasa de tudo?
A resposta simples não é invadir os mistérios, é aceitá-los. Cosmologias distintas, uma vida muito curta para saber qualquer coisa. Se estamos definitivamente no mesmo barco, temos que aprender a respeitar as diferentes cosmologias. Não está dado que a física ocidental consegue explicar os assuntos humanos. Alguém cuidou da terra para que todos os que se dedicam ao intelecto possam assim ficar. Temos de nos respeitar primeiro.
terça-feira, 7 de abril de 2015
Margem
terça-feira, 24 de março de 2015
quarta-feira, 5 de março de 2014
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Gourmet
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Bruto
sábado, 5 de maio de 2012
Dois sóis
terça-feira, 1 de maio de 2012
Frio
- Persiste porra, persiste e acaba com tudo, o poder de desfazer toda nuvem é teu.
Estar na nuvem exercia uma certa sedução em todos nós, um delírio difuso de poder observar oculto, onipresente e invisível. Não era ficar acima de todos o que almejávamos dentro da nuvem, tinha alguma inspiração do divino, a promessa das harpas e do branco que finalmente acalmaria o projeto-ser. Aceitávamos as intempéries na esperança de chegar a hora, como uma prova pra merecer a promessa.
- Quero descer, sair dessa droga de nuvem! Me solta! Deixa eu sair agora!
Ficamos muito balançando no vento frio, dias e noites dentro da nuvem. Enquanto a tempestade não desaparecia não observávamos lá embaixo. Ainda assim imaginávamos que as pessoas no chão nos olhavam, provavelmente pra pensar quando acabariam esses estrondosos dias azuis.
Sem poder sequer vislumbrar que os desaparecidos estavam acima, no olho da nuvem.
Quando o vento parou de zumbir começou a clarear, azul denso, azul fixo, azul frouxo, azulznho céu-de-dia-novo, branco respingando azul, branco limpo, branco lindo, branco que doía os olhos e purificava nossos desejos. Era aquilo que queríamos quando aceitamos entrar na nuvem, não o frio. O branco era ameno e claro, e pudemos apagar as velas. Alguns puderam se erguer e sumiram outros foram ficando mais leves e começavam a flutuar pelo interior da nuvem. Eu ainda sentia frio e estava com os pés úmidos, bem fincados no branco-algodão.
- Pensa que vais ser assim pra sempre? Não mesmo. Eu consigo sair dessa.
Ficar assim, suspenso, era ainda mais difícil naqueles dias de frio. Parecia que eles queriam mostrar o quão poderosos eram. Como se estivessem numa sala de comando decidindo que só merece voar quem a tempestade enfrenta. Nós no frio que o vento só fazia aumentar, dentro do azul-temporal que dava a dimensão exata da nossa pretensão. Gigante, humilhava nossa pequenez.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Começar de novo
domingo, 22 de abril de 2012
Dia 20
Bronca, brutal, besta, boboca, chula, tosca, eficiente, falsa, fabril, fixa, padrão.
Versus - Versos
Lapidada, carinhada, macia, perfurante, perfumada, trabalhada, literária, fantasia, franca, febril, frouxa, singular.
domingo, 15 de abril de 2012
Voltando
Veio subindo lentamente contando os degraus, carregado de antigos suspiros, cheio de memórias afetivas construídas e de lembranças cuidadosamente coladas, chegava do longo exílio que se impusera aos dezessete. No último lance de escada já estava arrependido de ter retornado à casa de seus pais. No terceiro andar notou que não tinha mais a grade verde na porta do 31, será que ainda era a velha Margarida que morava ali? Fazia quase dez anos que não sentia o cheiro de chá de macela que sempre emanava através daquela porta gradeada.
Ficou parado alguns segundos pensando que fazia a coisa certa e decidiu subir o último lance, tonto do regresso e da escada, nem lembrava do desgaste de subir e descer todos os dias depois de tanto tempo vivendo no térreo.